Imigração nas telas
Gaijin 2 e a novela Haru e Natsu são o retrato da integração de duas culturas
Por Renata Giovanelli
A imigração japonesa ao Brasil começou em 1908, com a chegada do navio Kasato-Maru, em 1908. Na época, o governo italiano havia proibido a emigração de seus cidadãos ao Brasil, então, as fazendas de café do Brasil estavam enfrentando problemas de falta de mão-de-obra. Além disso, conforme o acordo de cavalheiros efetuado, em 1907, com os Estados Unidos, tornou-se difícil a entrada de japoneses a esse país. Esses motivos fizeram com que os japoneses viessem ao Brasil. Tanto Tizuka Yamasaki em seu novo filme Gaijin – Ama-me Como Sou como a novela Haru e Natsu – As cartas que não chegaram falam da imigração e das diferenças culturais e sua integração.
O filme
Gaijin – Ama-me como sou, que levou quatro Kikitos nas principais categorias no 33º Festival de Gramado (filme, diretor, atriz coadjuvante - Aya Ono e música de Egberto Gismonti) é fruto de cinco anos de luta. Sua diretora e produtora, Tizuka Yamasaki - assim como muito dos personagens que criou - acredita na integração das culturas brasileira e japonesa e tem esperanças de viver num país que assimila estas diferenças. Seus dois filmes são fruto desta crença. Mais uma vez ela reuniu uma equipe de alto nível que obteve um orçamento raro de se conseguir no cinema brasileiro, mais de 10 mil reais, um elenco com atores internacionais e construiu uma cidade cenográfica especialmente para o filme, entre outros feitos.
Tizuka mostra os quase cem anos da chegada do primeiro navio trazendo japoneses para trabalharem nos cafezais de São Paulo e a integração cultural entre os dois povos. No novo longa, são os descendentes destes trabalhadores rurais que voltam para o Japão para fazer riqueza - continuando a idéia da construção de um futuro melhor para ambos os povos. A produção narra a saga de quatro gerações de mulheres: Titoe, Shinobu, Maria e Yoko (enfocando o período de 1908 a 2005).
A novela
A trama, que estreou no dia 02 de outubro conta a história de duas irmãs, Haru e Natsu, que se separam quando a família decide mudar-se para o Brasil e uma delas fica no Japão. As meninas tentam se comunicar por meio de cartas, que se perdem no caminho. Crescendo separadas, em culturas completamente diferentes, Haru e Natsu só vão se reencontrar 70 anos depois.
A novela foi produzida especialmente para comemorar os 80 anos da NHK (Nippon Housou Kyoukai), a maior e mais tradicional emissora de televisão do Japão. A produção contou com 23 atores, 800 figurantes brasileiros e cerca de 120 pessoas divididas entre produção e equipe de arte. Quem participou da gravação garante que foi uma experiência inesquecível. “Tive a oportunidade de conhecer como funciona os bastidores de uma produção de teletramartugia”, fala o aposentado, Roberto Takahashi, que fez parte da equipe como figurante.
Cerca de 40% da novela foi gravado no Brasil, principalmente na fazenda Monte D’Este, da agrícola Tozan de Campinas. Um set de filmagens - que inclui a construção de barracos de madeira, hortas para o cultivo de algodão, um ofurô e uma casa de madeira ao estilo da época - foi construído no local para abrigar as gravações.
Exibição em Campinas
No dia 12 de novembro vai ocorrer uma exibição especial do primeiro capítulo da novela Haru e Natsu – as cartas que não chegaram e um documentário, no Instituto Cultural Nipo-Brasileiro de Campinas. Segundo o presidente, Tadayoshi Hanada, a exibição estava prevista para ocorrer no Teatro Castro Mendes, mas acabou não dando certo. “A idéia inicial era no teatro devido ao espaço, mas estamos montando em parceria com a Sony um telão de ultima geração aqui o que promete ser um grande evento”, revela.
A exibição conta com a parceria do Nipo de Campinas, da NHK e a Sony. “Todos estão convidados para o evento, mas devido ao espaço limitado faremos reservas e o ingresso será trocado por um quilo de alimento não perecível”, informa Hanada.
__________________________________________________
Sakura
Delicadeza e perfeição são as características da flor símbolo do Japão, que marca o inicio da primavera
Por Renata Giovanelli
A estação do ano mais esperada pelos japoneses é a primavera, que começa em março no Japão e em setembro no Brasil. Com o início da primavera, as paisagens brancas e frias cedem espaço a um mar de flores rosadas que proporcionam um dos maiores espetáculos da natureza no arquipélago. As sakuras começam a desabrochar nas árvores no sul do Japão, em Okinawa, e vão em direção ao norte, até Hokkaido. “O fenômeno, que dura dois meses e se “move” como uma onda, é chamado de sakura zansen e significa, literalmente, linha de frente das cerejeiras”, conta a professora de nihongo, Emiko Banno.
As lendas
A tradição em torno da flor nacional símbolo do Japão está calcada em lendas e crenças. Sakura é uma modificação do nome sakuya, proveniente da princesa Kono-hana-sakuya-hime, a qual os japoneses veneravam no topo do Monte Fuji. Acredita-se que a princesa tenha caído dos céus sobre uma cerejeira.
Outro aspecto de forte significado do sakura é sua ligação com os samurais. No período feudal, a vida desses guerreiros era comparada à efemeridade da flor de cerejeira, que dura pouco tempo nos galhos das arvores. “Ela é muito apreciada pelos japoneses, pela beleza e pela fragilidade”, explica Emiko.
Hanami
Apreciadores das flores de cerejeiras não faltam. Eles se reúnem em grupos e passam horas observando as belas paisagens que a primavera traz. A prática ganhou até nome: Hanami. O hábito já tem mais de dez séculos e exige a dedicação dos participantes, já que, em cada região, o espetáculo só dura duas semanas.
O costume do Hanami vem de muito tempo. Durante a Era Heian (794 -1185), a festividade era reservada à aristocracia, que se reunia para escrever poemas e cantar sob as cerejeiras. Elas foram e ainda são tema de canções e danças japonesas. A popularização aconteceu somente durante a Era Edo (1688 -1704) e, desde então, tornou-se uma tradição para a maioria dos japoneses. “Nessa época, as pessoas reuniam-se sob as cerejeiras para comer, beber e dançar”, conta Emiko.
Hoje, países como o Brasil e Estados Unidos também realizam o Hanami graças à iniciativa japonesa de, no início do século 20, distribuir mudas da árvore para diversas nações como prova de amizade. Mais de três mil pés foram levados para os Estados Unidos e podem ser vistos nos jardins da Casa Branca. Com isso a cerejeira virou símbolo de fraternidade.
Segundo o aposentado Takeshi Minazaki, no Brasil isso pode serpercebido em São Paulo que tem uma maior concentração da cerejeira. “No bairro de Itaquera, em São Paulo, tem bastante, é muito bonito, e fica bem parecido com os parques no Japão, onde fica tudo cor-de-rosa”, revela Takeshi, que tem uma arvore em sua casa.
Recado sutil
Antigamente, a sakura era considerada símbolo do amor. Quando as mulheres enfeitavam os cabelos com um galho de sakura ou decoravam o quintal de casa com as flores, mostravam que estavam em busca de um amor. Nas peças do teatro kabuki, o cenário do bairro das gueixas é freqüentemente ilustrado pelas flores de cerejeiras para representar a alegria dessa região de entretenimento. Segundo Emiko, a flor também tem uma simbologia negativa: um galho quebrado de cerejeira também pode significar a aproximação da morte. “Acredita-se o que sakura é a ligação entre o mundo dos vivos e dos mortos, e que a alma dos mortos é absorvida pelas árvores das cerejeiras”, finaliza.
No comments:
Post a Comment